É a minha última Sexta-feira de Quark!. Quero com isto dizer que é, oficialmente, a última vez em que me encontro na situação de quarkonium ansioso para entrar no Intercidades para Coimbra e passar o fim-de-semana a aprender Física, com mais cinquenta estudantes igualmente excitados.
Para mim, será talvez um momento mais significativo que para a maioria deles. Sou até agora uma das únicas três pessoas a ter reprovado o Quark! com distinção; estou no final do meu segundo ano quarkiano. O primeiro não chegava, por isso cá estou eu outra vez. É assim natural que esteja mais emocionado e triste pela aproximação do final do ano.
O Quark! é um dos projectos mais dinâmicos e interessantes que poderia ter aparecido para estudantes do ensino secundário. Sendo titularmente uma "Escola de Física para jovens", é na verdade toda uma filosofia de aprendizagem e vivência, de abordagem ao ensino e à Física. Combinando um fórum online pulsante de actividade (principalmente resolução e discussão de problemas) e sessões presenciais com a duração de dois dias no Dept. de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, com despesas de transporte, alojamento e alimentação integralmente cobertas
pelo programa, o Quark! visa ensinar Física de nível universitário a jovens interessados e motivados. Concentra nele, mais que os melhores alunos a Física, uma hoste de excelentes físicos e professores, que abdicam do seu tempo para proporcionar uma experiência excepcional a esses alunos, e um Lobo Mau, de quem pouco mais se conhece do que a residência, o gosto pelo trompete e o sadismo inerente à colocação de quebra-cabeças complexos, e mesmo exasperantes, mas sempre divertidos, alguns tão pitónicos que fazem da sua resolução um caminho para o Nirvana da Física: difícil, engenhoso, iluminador.
O projecto nasceu da escola de preparação dos alunos que todos os anos representam Portugal na International Physics Olympiad (IPhO) e na Olimpiada Iberoamericana de Fisica (OIbF). Na verdade, vinte dos cinquenta alunos que integram o projecto são olímpicos, embora a única característica que os distinga dos demais no seio do Quark! é a vontade em se sujeitarem à tortura conhecida por Prova de Fogo, na 5ª sessão quarkiana, em Maio.
Só agora me apercebi de como é difícil explicar o espírito quarkiano a alguém que não esteja imerso nele. É difícil explicar porque razão nós, os quarkonia, rumamos todos os meses a Coimbra quando poderíamos ficar em casa ou ir sair conforme quiséssemos. É difícil explicar o que nos leva a entrar no DF às 9h00 e sair às 19h00, sabendo que apenas nos esperam matérias difíceis, problemas e bolachas. É difícil explicar os cubos de Rubik, as discussões pela noite dentro, o Ateneu, o Moelas, o Quebra, o bacalhau à Brás e o arroz doce, a hora do

, a Antunes e a Pousada, os tricky, o pitonismo, o Quark!-mate, o disco de Euler e os seixos saltitantes, a PDF, os Macs, as Monumentais, o início, o fim, as piadas obscuras, as Oreo, a kriptonite, as minhocas, o co-seno igual a um e o seno igual ao ângulo.
Apesar de ser, este ano, igualmente olímpico, escrevo isto na condição inabalável e vitalícia de quarkiano. A pessoa que escreve é alguém muito diferente da pessoa que chegou em Janeiro de 2008 a Coimbra com alguma insegurança e algum interesse por Física. O quarkonium que sai é alguém que sabe, orgulhosamente, a distinção entre o Lagrangeano e o Hamiltoniano; é alguém que sabe menos, porque viu mais; é alguém apaixonadamente curioso pela Física, pelo mundo. Tendo tomado contacto com cinco gerações olímpicas e duas gerações quarkianas, não me é difícil generalizar estes resultados para os elementos destes conjuntos. É factual que o estatuto de quarkiano aumenta a constante de decaimento da actividade intelectual e promove o bom funcionamento do organismo face à falta de sono e à presença de matemáticos.
É a minha última Sexta-feira de Quark!. Mas não será a última Sexta-feira em que, apesar de já não o fazer oficialmente, me reúno com a quarkónia do ano. Tendo estado presente nos dois primeiros anos, não planeio ausentar-me tão cedo, para grande mal dos futuros quarkianos e dos professores de sempre, que terão que continuar a aturar-me a discorrer acerca das virtudes da engenharia teórica e de uma dieta rigorosa de problemas na formação pessoal do quarkiano.
Estou, apesar de tudo, triste. Talvez, se tiver conseguido explicar um epsilon do espírito quarkiano, mais alguém compreenderá futuramente porque me encontro assim. Mas não deixa de ser verdade que, como diz a Balada, o Quark! tem mais encanto na hora da despedida.